domingo, 3 de abril de 2011

Morte em Debrecen

O dia fora muito cansativo no Museu Déri. Por isto, e por fazer muito frio nesta época do ano em Drebecen, decidi passar em meu apartamento para tomar um banho quente antes do happy hour. Percorri poucos quarteirões entre o meu apartamento e o Struzian kávé. Sentei-me junto ao balcão e pedi um Johnny Walquer. Era uma fria quinta-feira de fevereiro. Deixei lá fora o vento e a chuva fina que me acompanharam o dia todo. Bebi o primeiro gole do meu whisky e passei os olhos pelo interior da casa. Tinha umas quinze mesas, todas ocupadas. Ao fundo um pianista calvo e uma mulher negra, de meia idade, que interpretavam Lady Sings the Blues de Billie Holiday. Meus olhos correram pelas mesas. Chamou minha atenção numa delas, junto à parede, uma mulher. Era jovem e bonita. Não de uma beleza estonteante, uma beleza discreta. Mas, não foi este seu atributo, ou o fato dela estar ali sozinha, que chamou a minha atenção. Talvez até estivesse esperando outra pessoa, um namorado quem sabe. Não, o que chamou minha atenção era a forma dela rabiscar algo num bloco de notas. E o mais estranho, ela me fitava de quando em quando com seus grandes olhos castanhos. Espantado, eu não conseguia tirar os olhos dela. Ficamos cruzando olhares por vários minutos. Eu, por olhá-la fixamente, ela, por continuar me olhando e anotando, como se não percebesse que eu a estivesse vendo. Levantei para ir ao toalete sem tirar os olhos dela. Pensei em conversarmos na volta. Demorei uns poucos minutos e quando voltei não estava mais a mesa.

 Um tanto decepcionado, retornei a meu lugar junto ao balcão. Para minha surpresa, lá estava o bloco, ao lado de minha bebida. Nele, apenas um desenho. Era eu, caminhando por uma rua escura. Havia apenas uma tênue luz vinda da lâmpada de um poste. Minha sombra, refletida na parede, formava a figura de um anjo. Um anjo negro. Aquilo me deixou assustado. Precisava falar com aquela moça. Pedi informações ao garçom. Perguntei se ele a conhecia ou se dissera para onde iria. Insisti. Talvez tivesse dito algo quando deixou o desenho. Nada. Ele não tinha nenhuma informação. Olhei mais uma vez para o desenho. Sim, eu reconhecia aquela rua. Era próxima ao Utca Park. Paguei a conta e fui para lá.

A rua estava deserta. O único ruído vinha de uma boate do próximo quarteirão. Era a única coisa pulsante próximo ao Utca Park. Lá dentro, o som era bastante alto. Havia apenas uma meia dúzia de pessoas. Ela estava na pista, dançando, sensual e sozinha. Eu me aproximei e ela, usando sua echarpe, me puxou para junto de si. Pela primeira vez naquela noite, senti seu corpo quente muito próximo ao meu. Tentei puxar assunto, perguntando seu nome. Ela me respondeu com silêncio e uma cara de reprovação. Beijou meus lábios como quem dissesse: Sem perguntas! Obedeci. Ficamos ali, ela dançando e eu mais admirando, mais alguns minutos. Nada dizíamos em palavras.

 Passado alguns minutos, talvez nem meia hora, ela me puxou pela mão. Saímos da boate e caminhamos poucos quarteirões. Ela ia a minha frente. Deslizava o corpo pela calçada com se ouvisse música. A echarpe, agora entre seus dedos, era a extensão de seus braços, movendo-o com leveza e encanto. Embriagado por seus movimentos, mal vi quando chegamos a um prédio antigo. Subimos um pequeno lance de escada. Ela girou a chave e entramos no apartamento conjugado. Ainda sem dizermos uma palavra uma ao outro, conduziu-me a uma poltrona próxima a janela. Trouxe-me um whisky e colocou um CD para tocar. Nothing Compares, Sinéad O’Connor. Seu corpo se movia ao compasso da música. Dançava maravilhosa. Como algo intangível. Irresistível e delicadamente, começou a tirar sua roupa. Ao final da música, completamente nua, chega a mim. Recebo seu beijo doce, terno, cheio de paixão. Fizemos amor como nunca fizera antes. Por fim, era como se eu tivesse atravessado uma linha. Como se houvesse um antes e um depois daquela noite. Era algo que levaria comigo. Fizesse eu o que fizesse, andasse por onde andasse. Em paz, adormeci com o toque de seus dedos pelo meu corpo.

Na manhã seguinte acordei num sobressalto. Numa fração de segundos tentei entender onde estava. Olhei ao redor. As lembranças da noite anterior começaram a vir. Virei-me e a vi. Linda. Seus cabelos cobriam parte do rosto. Deixavam amostra apenas um de seus lindos olhos castanhos. A expressão era de serenidade. Toquei pela última vez seu corpo gelado. Pena que tivesse que terminar assim.

 
Gérson Luis Santos
tado pelo autor

sábado, 12 de março de 2011

Gustavo e Ester
        
       Gustavo era um escritor que passava por um período de pouca inspiração. A sua vida não andava aquilo tudo e isto se refletia no seu trabalho. Vamos dizer que o “período de pouca inspiração” e a “vida não andava tudo aquilo” era por conta de nossa amizade. Seu último livro O Samurai de Nagoya vendeu apenas 298 exemplares e a crítica da Revista Literária foi taxativa: “uma bosta”. Sacanagem dos caras. Tá certo, ele se perdeu um pouquinho no início por não dizer a que veio, não teve uma boa continuidade e o final ninguém entendeu. É! Uma bosta mesmo! Que meu amigo Gustavo me perdoe.
         
        Seu livro anterior até que não era ruim. Talvez tenha pecado pelo título, Milharal de Sentimentos. Seu agente bem que tentou lhe convencer a mudar. Mas Gustavo insistiu. Outro título tiraria a autenticidade de sua obra. Tirou foi os leitores.


Gustavo não assimilou bem os insucessos. Isto se, andar apenas de roupão no brique da redenção, em pleno domingo, possa ser chamado de “não assimilar bem os insucessos”. Ester, sua segunda esposa, também pensava o mesmo. Aliás, sempre achei Ester uma mulher inteligente. Até, de inicio, não a critiquei por abandonar o Gustavo. Não que eu não tivesse tentado dissuadi-la. Falei para ela que aquilo era coisa de artista, que iria passar com o tempo, etc e tal. Infelizmente, de nada adiantou.

Mas o que fez o Gustavo pirar, e eu também, foi ela trocar o meu amigo por um escritor de auto ajuda. Eurico Battle, o rei dos remédios com tarja preta. Logo a Ester, que sempre afirmou que este tipo de livro só pra calço de mesa e peso de papel. E vamos combinar, se tem alguém precisando de auto ajuda é o Gustavo e não a Ester. Bem que tentei conversar novamente com ela. Fui a seu consultório na última sexta. Não falei antes, mas Ester é dentista.  Na sala da recepção encontrei um volume do último livro do Eurico Battle. A Estrela que Existe em Você, quinta edição, quarenta mil exemplares. Conclui que não seria um bom momento para conversarmos e fui embora.

Sábado fui ao apartamento do Gustavo. Ele estava tão esquisito quanto das vezes anteriores. Escrevia com a mão direita numa folha de ofício branca. Segurava a caneta com os olhos fechados e a cabeça baixa. Sua mão esquerda, aberta, apoiava a cabeça. Fiquei a contemplá-lo por alguns segundos. Em seguida ele me enxergou e sorriu.

- Psicografia meu amigo, psicografia. Isto vende muito mais que auto ajuda. Agora eu quero ver a Ester pedir perdão de joelhos.

O problema é que o Gustavo esta tendo dificuldade na recepção. Ele fica horas na frente da folha em branco. Até agora só o titulo, A Estrela é Você. Mas com este título, não sei não!

Gérson Luis Santos

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Ilusionista

Este fato ocorreu em agosto de 1983, na cidade de Santo Cristo, próximo à divisa com a Argentina. Não pense o leitor que seja tarefa fácil narrar este episódio. Não é para mim, ou para qualquer outra pessoa que o tenha presenciado. Mas vamos começar. Após uma semana de intenso trabalho, o Grande Circo Brazil estava pronto para abrir sua bilheteria. Era a maior atração da cidade naquela fria noite de sábado. Certamente o espetáculo seria com platéia completa. Todos queriam assistir a maior atração da casa, Mister Grave. Não, ninguém ouvira falar no mágico antes da chegada do circo na cidade. Mas, o alto falante da velha Brasília, que afundou as suas poucas ruas, não deixava dúvidas, era a grande atração do circo.

O espetáculo começou com palhaços, domadores e equilibristas se revezando para o deleite da platéia. Passados quarenta e cinco minutos, faltava apenas o grand-finale. Mas, nem sempre um bom começo é certeza de um final feliz. A platéia entrou em frisson quando o mestre de cerimônias anunciou Mister Grave. A partner era nada mais, nada menos que Helena, a jovem mais bela de toda a região. Se ainda pairava alguma dúvida, agora não mais. Todas as atenções estariam voltadas para o palco.

Mister Grave era só mistério. Todo de preto, inclusive a capa em cetim. Seu rosto, fino e pálido, tinha o olhar gelado. Nada falou no palco. Entrou em cena e cruzou os braços. Desferiu um olhar desafiador à platéia. Num gesto ágil, virou-se para Helena. Sem que dissesse uma só palavra, dois homens, com aparência de carrascos, agarraram a moça e a amarraram numa maca. Em seguida, o mágico colocou um lenço roxo sobre seu ventre. Calmamente, ele dá uma volta ao redor maca. Quando surge de traz da mesma já está com uma serra elétrica nas mãos. Vira-se para a platéia e, pegando a todos de surpresa, liga habilmente o equipamento. As mulheres gritam de pavor. Novamente num gesto ágil, Grave desfere um golpe contra o ventre de Helena. Todos ouvem, aturdidos, o grito de pavor da jovem. Seu sangue jorra para todos os lados. Mister Grave, de joelhos, lavado em sangue, fica imóvel.

Após uma gritaria histérica, pouco a pouco, o silêncio faz-se na platéia. A imagem do mágico, ao lado do corpo da jovem, congela por alguns segundos. Só é quebrada em instantes, quando o Doutor Salinas, correndo para o palco, grita - “Ela morreu”. Quando chegou junto ao corpo descobriu que não precisava ser médico para constatar o óbito. Em seguida estava cercado por diversas pessoas. Entre elas o delegado Vantuir, que ali mesmo deu voz de prisão a Mister Grave.

A cidade, em polvorosa, queria linchar o mágico. A cadeia foi cercada ainda na madrugada. Felizmente, o reforço de duas viaturas vindas de Santa Rosa, a pedido do delegado, evitou uma tragédia ainda maior. A cidade não dormiu naquele fim de semana.

O enterro da jovem ocorreu na segunda-feira. A cidade, em procissão, foi a Igreja da Ascensão do Senhor para prestar as últimas homenagens a Helena. O clima era de total comoção. Tudo isto deixava o delegado Vantuir muito apreensivo. Perguntava-se a todo o momento se fora sábia sua decisão de manter o mágico na cidade. Felizmente, nada de mais trágico ocorreu naquele dia, e nos que se sucederam.

Na madrugada de sexta-feira, treze de agosto, quando a cidade já queria retornar a sua rotina, mais uma bomba caiu sobre Santo Cristo. O túmulo de Helena fora profanado. O ladrão, ou seja lá o quer for, levou tudo, caixão e corpo. Chamado em sua casa, o delegado foi averiguar no cemitério. Após exaustivas buscas, não encontrou nenhuma pista. Antes de qualquer alternativa, Vantuir decidiu falar com o mágico. Talvez ele pudesse dar algum subsidio que levasse ao autor do crime. Mas as surpresas da noite não haviam ainda terminado.

A cela onde Mister Grave encontrava-se preso, sozinho, estava vazia agora. Não havia nenhum sinal de arrombamento. Estava tudo arrumado, na mais perfeita ordem, inclusive com o lençol estendido sobre o catre. A única coisa que mudara, em relação ao dia anterior a sua chagada, era o misterioso aroma de almíscar no ar.

O delegado Vantuir estava bastante cético quanto à liberação do espetáculo de despedida do Circo Brazil da cidade. Ele era contra, porém, voto vencido. O proprietário do circo não queria sair com a imagem manchada da cidade. Pata isto, teve o apoio do prefeito, da câmara de vereadores e da Associação Comercial. Afinal, era uma ótima oportunidade para os moradores do entorno virem a cidade gastar no comércio.

O circo estava lotado para sua última apresentação. Até o delegado Vantuir estava presente. Levou toda a família com os ingressos cortesia que recebera do dono do circo. Dera por gratidão a sua flexibilidade. O clima, que começou um tanto tenso, se dissipou tão logo os macacos, palhaços, trapezistas, domadores e equilibristas começaram a se revezar no palco. Os aplausos cresciam a cada número. Como não haveria a apresentação do ilusionista, o espetáculo iria terminar um pouco mais cedo. O mestre de cerimônias dirigiu-se ao centro do palco para começar as despedidas. Nem começou a falar e as luzes se apagaram.

O perfume de almíscar toma conta do ar. Uma luz direcional roda o palco até fixar-se num de seus cantos. Nele esta Mister Grave e sua indefectil capa negra. A seu lado, uma mesa coberta por um fino tecido na cor roxa. Existe um grande volume abaixo deste tecido. O mágico, após rodar lentamente a mesa, usa de sua habitual agilidade para arranca o pano, deixando a mostra àquilo que ocultava. Para assombro e pavor de todos, lá estava o ataúde de Helena. Do nada, os tambores começam a rufar.  Mister Grave, de forma enérgica, começa a abrir as trancas do caixão. O cheiro de almíscar é cada vez mais inebriante, assim como mais alto é o rufar dos tambores. Mister Grave destrava a última tranca e abre o ataúde. Seu olhar se enternece. Por segundos ele fica olhando, emocionado, para dentro do ataúde. Em seguida, com olhos embargados, estende as mãos e, delicadamente, ajuda Helena a levantar-se do Caixão.

Gérson Luis Santos

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Alice

"Eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido." Para Alice, que já assistira Sociedade dos Poetas Mortos quinze vezes nos últimos seis meses, a pergunta era: E hoje, onde encontrar a sua floresta?

        Ela não tinha dúvidas que floresta era apenas uma figura de linguagem. A única coisa que poderia ser sugada no meio do mato seria seu sangue por pernilongos. Antes de continuar, vamos conhecer um pouco mais de Alice.

        Herdeira e filha única de Rodolfo Leitão e Barros, a loiríssima Alice concluira a faculdade de administração para cuidar dos negócios da família. Era a única VIP de Porto Alegre que não tinha a idade entre parênteses na revista Caras.  Sua ultima festa de aniversario foi invadida pelo pessoal do pânico na TV. Segundo o vesgo, ela sacou as velas do bolo de aniversário ainda acessas, tão logo o bolo apareceu entre os convivas. Mas ele jura: Eram trinta e dois. Mas o que tem a ver a Alice deste parágrafo com a Alice do primeiro, visto não terem se passados nem trinta centímetros. Calma, chegaremos lá.

        Não, Alice não foi iluminada ao apaixonar-se por um artista zen budista. A mudança deu-se através de sua vida profissional. Agora ela era diretora de RH da Leitão e Barros. A empresa começou a perder seus bons profissionais para a concorrência e algo havia de ser feito. Foi quando James C Hunter entrou em sua vida. Alice não só leu “O Monge e o Executivo” três vezes como fez um retiro de uma semana. Tudo bem, O Krishna Shakti Ashram não era bem um monastério como anunciou no jornal da empresa. Porém, o Spa em Campos do Jordão era um espaço para meditações e práticas de Yoga.
       
        Dizem que a mudança comportamental, ocorrida nos últimos seis meses, de busca da essência e de um ser humano melhor, assunto de dez entre dez socialites de Porto Alegre, do Hugo Beauty ao Country Club, foi mais obra da Alice Leitão e Barros do que do próprio James C Hunter. Mas não se preocupem, temos boas novas.
     
        Alice foi apresentada a Michael Hammer, o pai da reengenharia. Ela ficou encantada com o autor e a obra. Ela afirma que a reengenharia não é só um sistema de administração, mas um modo de vida, segundo ela, um modo de vida a sua cara. Já tem programado a implantação na empresa para as próximas semanas. Em entrevista à revista Amanhã, anunciou o plano de enxugamento no quadro de empregados e diz que é só o começo. Afinal o objetivo são os processos, não as organizações e as pessoas. Enfim, Alice voltou a sorrir nas tardes ensolaradas do Country Club.


Gérson Luis Santos